Todos nós, a certa altura da nossa vida acabamos a celebrar o nosso vigésimo aniversário – salvo claro excepções em que o infortúnio assim não o permite -, mas felizmente temos uma esperança média de vida que assim o possibilita. As bandas, porém, não gozam de tanta saúde, pelo que, chegar aos 20 anos de carreira – ainda por cima, ininterruptamente – é algo que merece celebração. Os The Bouncing Souls fazem esses 20 anos e, é na comemoração dos mesmos, que regressam a Portugal. Oito anos depois.
Os Jerseys viram a sua actuação precedida pelos Belgas: Gino’s Eyeball e pelos Portugueses: Decreto 77, o que fazia deste show uma combinação de diferentes estilos de punk rock.
Saúde-se a pontualidade do acontecimento, pois pouco depois das 22 horas lá estavam os belgas em palco. “Velhos”, gordos e suados. Nada sexy, contudo, divertidos. Os Gino’s Eyeball desenvolvem um punk soalheiro e galhofeiro, uma rambóia que por vezes não flui e sente-se o forcing da situação. Nota-se que são estratagemas que vêm sendo usados desde, diria sempre, tal como as covers que fazem parte do seu reportório. Não é, no entanto, todos os dias que se ouve Enrique Iglésias num concerto punk. Já NOFX, até poderá acontecer.
Mais sérios surgem os Decreto 77. De cara lavada, quer musicalmente onde, refira-se, as músicas novas da banda atestam uma qualidade musical acima da média e são um excelente aperitivo para um álbum que não tardará a ver a luz do dia. A banda parece, igualmente, ter encontrado alguma estabilidade a nível estrutural, uma vez que as músicas fluem como se os seus membros tocassem juntos desde sempre. Concorde-se que os Decreto 77 nunca soaram tão bem.
Na sobriedade do palco do Music Box, bar aparentemente de bons costumes e dresscode condizente, destaca-se um pequeno “20″ cravado na parede. Afinal, a banda que se seguia faz este ano 20 anos de actividade – já o tinha referido?
E como quem não tem nada a provar, a banda surge destemida logo desde o inicio da sua prestação com o ressoar do seu maior hino: uma das melhores músicas punk de sempre, True Believers. A festa estava lançada e desde logo é colocada a fasquia a nível de recorde mundial. Nunca, até ao final, é deitada abaixo. Desfilam os maiores hinos – os do passado – intercalados inteligentemente com os hinos do futuro. Momento para respirar. Misfits surgem acústicos. Estranho, mas seguramente uma das melhores interpretações da veterana banda americana desde que Danzig bateu com a porta. Há uma sucessão de músicas de toada mais lenta para retemperar forças, que nunca faltariam até final, mesmo quando o acelerador é carregado mais a fundo. Amantes das motas, ou pelo menos o seu baixista – Bryan Kienlen – o diesel fez-se gasolina e excessos de velocidade foram presença garantida. Velocidade musical contrastante com uma calma e serenidade impressionante de um sempre aprontado Greg Attonito. Todos sabemos que o dom da comunicação não é pertence de qualquer um e nos Bouncing Souls a tarefa é incumbida ao baixista. Greg não é, contudo, antipático. Reservado. Talvez surpreendido pela festa que se ia fazendo degraus abaixo, onde a pista de descolagem era curta, mas muitos foram os que voaram. Pouco espaço para tamanha euforia.
Palavra aos degraus em si. Curiosa a ornamentação providenciada pelo próprio Music Box. Curiosa e… simpática. Dois artefactos bastante interessantes, quais gárgulas protectoras. Pisões, arranhões, braços mais vermelhos que o saudavelmente desejado, mas, acima de tudo, uma superação quase total à resistência de narizes e dentes, bem como alguns dedos de pés mais achatados que terão feito muitas cinderelas, a Kate não deixou de ser Great, mas is Gone.
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Uma nota negativa final – sim, esta implícita e directa – ao próprio público. Saberá Deus nosso senhor, ou não, quando as pessoas se irão sensibilizar para a liberdade individual e de direito de outrem, bem como do seu bem estar, e deixar de fumar em tão pequenas salas e, muito menos, quando a agitação é tão intensa. É curioso o clamar constante dos supostos direitos dos fumadores e que, apesar de não ser contra quem queira fumar – cada um desce a escada como bem entender – há limites, nem mais que seja porque vivemos em sociedade. Sociedade essa que garante igualmente aos não fumadores o seu espaço, o seu bem estar e os seus direitos. Afinal, nem sequer nascemos fumadores.